Cachoeirão é uma obra magnífica de poemas que narram pulsão de vida e versam os movimentos de águas íntimas, genuínas como o encontro de referências que fluem das sonoridades e paisagens brasileiras. Sensorial e vívido, este é um livro para aqueles que desejam sentir a terra nas pontas dos dedos. Uma composição poética de inegável intenção, cada palavra eleita e mapeada, coisa de quem sabe escrever com o propósito da língua. Enquanto eu lia os poemas de Elias de Aquino, minha boca queria pronunciá-los. Como escritora, fui arrebatada pela ambientação impecável, os cenários e paradas. A materialidade e o inalcançável equilibrados, os contrastes bem definidos, as dualidades que ultrapassam o comum. Quando terminei as várias releituras que fiz, disse a Elias que Cachoeirão é um presente para os leitores, porque poderão experienciar a consciência plena que um excelente poeta tem sobre sua própria escrita. Uma oportunidade rara de se entregar a um livro que sustenta a condução. Em Cachoeirão, encontrei o que sempre espero de uma obra de poesia: narrativa, sentido e assombro. Releio e penso: não acredito, é um deslumbre. Assim como fala um dos seus poemas, “Repare na água/ espancando a falésia (...) como eu poderia/ não me dobrar?”
(Jarid Arraes, escritora)
Elias de Aquino (Corumbá/MS) é artista interdisciplinar. Sua produção atravessa os campos da pintura, instalação, performance, escrita e processos educativos informais. Investiga relações entre memória, afeto e violência a partir do território sul-mato-grossense, reinventando arquivos locais, ficções históricas e sua própria biografia familiar.
Decantou
do céu
sua bruma
a luz quente
na janela
grita antes do galo,
me levanto
com minha porção do Sol
debaixo das asas
no início do
tempo
na primeira das manhãs
um voo me habita
sou essa pequena morada
no ar
Sou aquele
que irriga tuas moradas
Aquele carregando milagres
à tua varanda
que limpa teus panos
a quarar nas pedras
Sou antes mesmo do meu nome
a pequena passagem
escoando em ti para ti apenas
Sou nascente que aflorou há pouco,
e que há milhões de anos
corre em teu sangue transportando sedimentos
A primeira casa que morei
foi um aguamento
Nasci de um corpo que era a balsa
Tenho o rosto de outras filhas, mestiças
que me remontam o rio
Vem a memória
ser vendaval e estaca
Assim me debruço
de peito sendo porto; minha nudez é um convite
para os camalotes
Minha palavra é um canto de nereida
e venho então
vazante do ventre
que nasci Essa Baía negra
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