Um romance experimental escrito à maneira das crônicas indígenas novohispanas, Inimigo de Ambos os Lados reconta diversos eventos históricos importantes dos últimos cinco séculos, da tomada de Tenochtitlan e Tlatelolco à Grande Aceleração, passando pela ascensão e queda dos grandes impérios coloniais europeus, da perspectiva de Tezcatlipoca, deus asteca da providência, da divinação e do céu noturno. Manipulador e caprichoso, Tezcatlipoca, com seus toques sutis e interferências veladas, tece uma complexa trama de intrigas políticas, estratagemas militares e magia enoquiana, operando como artífice oculto da modernidade. Qualquer tentativa de encontrar um sentido maior nos eventos históricos à luz dos desígnios de Tezcatlipoca, no entanto, está fadada ao fracasso. Afinal, não há como levar a sério as coisas que os deuses fazem apenas por diversão.
Habitante das fronteiras entre o Ceará e o Arizona e entre teoria e ficção especulativas, as narrativas de Ebervalius Ahau sondam as profundezas turvas de mares imaginários cujas ondas colidem contra os rochedos de realidades ainda não mapeadas. Com seus agenciamentos temáticos ecléticos, o autor convida seus leitores a explorar mundos possíveis e impossíveis, que decerto irão deixá-los fascinados, mas talvez também um pouco confusos. Faz parte.

"Desde sua tardeira chegada às margens do lago Texcoco, os mexicanos viveram à sombra de outros povos, maiores que eles em poder e prestígio. No começo eram os colhuacanos, herdeiros diretos da antiga fidalguia tolteca. Mas sua hegemonia foi usurpada pelos tepanecas de Azcapotzalco, que, com a ajuda de mercenários mexicanos, avassalaram as demais nações das redondezas.
Todos esses povos compartilhavam tradições astronômicas muito mais antigas do que eles próprios. Exímios observadores do firmamento, conheciam os ciclos das estrelas e dos planetas, acompanhando-os com grande esmero. A extensão desse conhecimento dos céus, no entanto, tinha como limite o alcance de seus olhos. As névoas obscurecentes do céu noturno escondem segredos inacessíveis sem a ajuda dos devidos instrumentos. Astros nunca antes vislumbrados por olhos humanos.
A ignorância, no entanto, não exime ninguém dos efeitos de astros ocultos. Eis que, na presença de augúrios invisíveis, nasce no seio da elite mexicana um plantel de homens destinados a mudar tudo."
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"O primeiro presságio de desgraça apareceu na forma de uma aurora de fogo a perfurar o coração do céu. Brotou no firmamento oriental, seu brilho transformando a noite em dia antes de desvanecer-se na luz do Sol nascente. Assim foi durante um ano inteiro, causando grande espanto entre as gentes.
O segundo presságio veio na forma de um incêndio, quando o templo de Tlacateccan, consagrado a Huitzilopochtli, sofreu combustão espontânea. Com a água de seus cântaros, os mexicanos tentaram apagá-las, mas as labaredas devoraram toda a armação do templo, todas as colunas quadradas de madeira, até não sobrar nada.
O terceiro presságio foi quando o templo de Xiuhtecuhtli em Tzommolco foi alvejado por um raio silencioso, caído do céu como um estilhaço do Sol.
O quarto presságio ocorreu quando, em plena luz do dia, um cometa riscou o firmamento do poente ao nascente, dividindo-se em três e fazendo chover brasas sobre a terra.
Quinto presságio funesto: as águas salobras do lago Texcoco borbulharam em redemoinhos. O nível do lago subiu sobremaneira, chegando a inundar as casas.
Sexto presságio funesto: durante a noite, os mexicanos passaram a ouvir os choros e gemidos desesperados de uma mulher pelas ruas da cidade. Vagando a esmo, ela gritava:
— Meus filhos queridos, já é chegada a hora de nossa partida! Ó meus filhos queridos, para onde hei de vos levar?"
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“Os planos do engenheiro eram grandiosos, e de inspiração divina. Um dia, ao cuidar de outros assuntos, recebera uma visita das mais inusitadas. Através de seu finíssimo espelho veneziano, aparecera uma entidade vinda diretamente dos planos superiores. Um serafim de muitos olhos, todos eles negros, espelhados e fumegantes. Suas seis grandes asas eram de penas iridescentes listradas em preto e branco. Seu corpo era todo de um negro profundo, à exceção de duas faixas horizontais amarelas no rosto, uma à altura dos olhos, outra à altura da boca. Em suas orelhas tinha brincos com guizos de ouro, e em seu colo, um cordão ricamente ornado com pequenas conchas de bordas estriadas. Vestia um colete ocelado e emplumado, sobre o qual havia um espelho circular negro e fumoso, e mais guizos de ouro amarrados pouco acima dos tornozelos. Em seu pé esquerdo calçava uma sandália de cor branca, mas seu pé direito não existia. Em seu lugar, projetava-se uma grossa cauda de cascavel.”
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