Poemas do Bicho Mulher - Lesley Dominiscki Luz

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O LIVRO

 

A caça às bruxas castrou o bicho mulher. Plantou a obediência e a submissão, apagou a face revolucionária da mulher detentora da sabedoria e em comunhão com a natureza. De lá pra cá, um movimento feminista equivocado (rendido ao neoliberarismo) se deu.  Algumas de nós entramos para o mercado de trabalho, adquirimos uma certa independência financeira, deixando outras de nós pra trás. Hoje carregamos o cuidado reprodutivo como um pacote pesado, o cuidado com a vida de toda uma sociedade, e acumulamos funções invisíveis socialmente.  Estamos exaustas, assim como a mãe terra anda exausta por tanta exploração. À mulher foi dada a faixa de “cumbuquinha de amor”, e pra cumprir esse papel ela se submete à violências diversas e em vários níveis, uma exploração da generosidade feminina. Os poemas do “Bicho Mulher” encontram uma forma de subversão através da escrita, dessa mulher que se encaixou nesse modelo de sociedade, e aceitou ser coadjuvante na história da humanidade. É um  relato desabafado desse cotidiano que já não pode mais ser. Onde a escrita encontra um respiro para a condição de repressão em que a mulher vive.  Os dizeres contam uma história, em ordem cronológica, de conquista de uma libertação em meio a uma relação abusiva, e floreia com palavras os acontecimentos do cotidiano. Compartilhar esse contexto com outras mulheres é trazer a consciência da necessidade em assumirmos as rédeas de nossas vidas, achando um lugar pra realizações pessoais e, por que não dizer para os prazeres femininos de todo o tipo, como por exemplo, a publicação de um livro de poesias.

 

Ao longo de páginas que transbordam lirismo, crítica social e intensidade, a autora constrói uma voz própria, marcada por musicalidade, engajamento e coragem. Seus poemas, muitas vezes ancorados em referências culturais como músicas, filmes, literatura e artes visuais, evidenciam uma mulher que se refaz escrevendo, que busca, que rompe, que se posiciona.

 

Com uma produção surpreendentemente fértil, esta obra revela uma poética que começa como crônica íntima e cotidiana, mas que logo se afirma como manifesto. Feminista, política, radical em sua delicadeza e firme em sua denúncia, a poesia aqui pulsa com urgência e verdade.

 

“Tudo é poesia”, já dizia Guimarães Rosa. E a poesia que habita este livro não apenas observa o mundo: ela grita, canta, transforma — e convida o leitor a fazer o mesmo.

 

A AUTORA

 

Lesley Dominiscki Luz, formada em Ciências Biológicas. Professora na rede pública de ensino do Estado de São Paulo por 26 anos. Mãe solo de um jovem de 20 anos, e uma garota de 16. Natural de Itanhaém, caiçara. É a terceira filha de uma família de seis irmãos, de maioria mulheres, quatro.

 

Quando jovem desejou ser jornalista. Queria fazer jornalismo como forma de denunciar os problemas sociais, mas foi lecionando que encontrou o caminho para custear a universidade. O estudo das ciências biológicas ampliou o seu olhar para além das questões sociais, para os dilemas de ordem ambiental. Durante a pandemia, foi pega por uma crise de ansiedade que quase a paralisou.

 

No vazio, esbarrou na escrita que funcionou como um remédio bom, bom para o resgate de si mesma. Em tratamento, com ajuda de sessões de terapia, entendeu que tem comportamento de pessoas com perfil de codependência emocional e teve consciência dos abusos a que se submeteu em relações conjugais. Entre aliviar angústias e sossegar euforias, durante crises de ansiedade, a escrita lhe preenche, e lhe esvazia, como busca do seu ponto de equilíbrio. Por esse motivo se veste de palavras.

 

ALGUNS TRECHOS

 

Mulher Negra

É oprimida pelo machismo

É oprimida pelo racismo

Mulher negra é descendente de mulheres

que viveram a escuridão da escravidão

É descendente de mulheres escravizadas

que serviram seus senhores na mesa, na cama e no chão

Tamanha humilhação

Mulher negra tem mais dificuldade de, na

sociedade, ter ascensão

De se tornar médica, juíza, escritora,

engenheira, cientista, arquiteta, jornalista

Mas cozinheira, faxineira, lavadeira,

balconista, você encontra de montão

Mulher negra foi impedida de estudar

duas vezes, por ser negra e por ser mulher

A ela foi dada essa submissa condição

Feminismo na pele escura de mulher

negra é um movimento mais forte

A luta dessas mulheres é pra alcançar

igualdade de gênero, classe e raça

Por isso a mulher negra é sinônimo

de resistência

Como Dandara, Ruth de Souza, Rosa

Parks, Firmina Reis, Marielle Franco,

Angela Davis, Carolina Maria de Jesus

e tantas, tantas outras

mulheres negras que, conscientes de sua

história violenta e injusta, seguem

dizendo Não

Não ao passado e não ao presente

manchados pela escravidão

NÃO

 

 

 

Quando partir


Alívio

 

Nunca mais riso roubado 

Nunca mais deboche 

Nunca mais mulher selvagem presa na gaiola 

da angústia, ansiedade e depressão 

Nunca mais julgamento 

Nunca mais humilhação 

Nunca mais fogueira da inquisição 

Nunca mais cinto de castidade

Iara, mãe D’Água 

Também passou pela mais longa história 

da revolução  

 

 

 

Me perco me acho

 

Me perco 

 Me acho 

 Momentos que sinto 

 Saudades de mim 

 Às vezes 

 Me perco dos meus 

 Talvez até de Deus 

 A reza traça o caminho de volta 

 De volta para o eixo 

 E para o encontro comigo mesma 

 Manifestação que canta, samba, forrozeia 

 Poetiza 

 Natureza minha 

 Se indigna também, entristece

 Mas celebra a vida com Deus de novo 

 E sempre, amém!  

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