A caça às bruxas castrou o bicho mulher. Plantou a obediência e a submissão, apagou a face revolucionária da mulher detentora da sabedoria e em comunhão com a natureza. De lá pra cá, um movimento feminista equivocado (rendido ao neoliberarismo) se deu. Algumas de nós entramos para o mercado de trabalho, adquirimos uma certa independência financeira, deixando outras de nós pra trás. Hoje carregamos o cuidado reprodutivo como um pacote pesado, o cuidado com a vida de toda uma sociedade, e acumulamos funções invisíveis socialmente. Estamos exaustas, assim como a mãe terra anda exausta por tanta exploração. À mulher foi dada a faixa de “cumbuquinha de amor”, e pra cumprir esse papel ela se submete à violências diversas e em vários níveis, uma exploração da generosidade feminina. Os poemas do “Bicho Mulher” encontram uma forma de subversão através da escrita, dessa mulher que se encaixou nesse modelo de sociedade, e aceitou ser coadjuvante na história da humanidade. É um relato desabafado desse cotidiano que já não pode mais ser. Onde a escrita encontra um respiro para a condição de repressão em que a mulher vive. Os dizeres contam uma história, em ordem cronológica, de conquista de uma libertação em meio a uma relação abusiva, e floreia com palavras os acontecimentos do cotidiano. Compartilhar esse contexto com outras mulheres é trazer a consciência da necessidade em assumirmos as rédeas de nossas vidas, achando um lugar pra realizações pessoais e, por que não dizer para os prazeres femininos de todo o tipo, como por exemplo, a publicação de um livro de poesias.
Ao longo de páginas que transbordam lirismo, crítica social e intensidade, a autora constrói uma voz própria, marcada por musicalidade, engajamento e coragem. Seus poemas, muitas vezes ancorados em referências culturais como músicas, filmes, literatura e artes visuais, evidenciam uma mulher que se refaz escrevendo, que busca, que rompe, que se posiciona.
Com uma produção surpreendentemente fértil, esta obra revela uma poética que começa como crônica íntima e cotidiana, mas que logo se afirma como manifesto. Feminista, política, radical em sua delicadeza e firme em sua denúncia, a poesia aqui pulsa com urgência e verdade.
“Tudo é poesia”, já dizia Guimarães Rosa. E a poesia que habita este livro não apenas observa o mundo: ela grita, canta, transforma — e convida o leitor a fazer o mesmo.
Lesley Dominiscki Luz, formada em Ciências Biológicas. Professora na rede pública de ensino do Estado de São Paulo por 26 anos. Mãe solo de um jovem de 20 anos, e uma garota de 16. Natural de Itanhaém, caiçara. É a terceira filha de uma família de seis irmãos, de maioria mulheres, quatro.
Quando jovem desejou ser jornalista. Queria fazer jornalismo como forma de denunciar os problemas sociais, mas foi lecionando que encontrou o caminho para custear a universidade. O estudo das ciências biológicas ampliou o seu olhar para além das questões sociais, para os dilemas de ordem ambiental. Durante a pandemia, foi pega por uma crise de ansiedade que quase a paralisou.
No vazio, esbarrou na escrita que funcionou como um remédio bom, bom para o resgate de si mesma. Em tratamento, com ajuda de sessões de terapia, entendeu que tem comportamento de pessoas com perfil de codependência emocional e teve consciência dos abusos a que se submeteu em relações conjugais. Entre aliviar angústias e sossegar euforias, durante crises de ansiedade, a escrita lhe preenche, e lhe esvazia, como busca do seu ponto de equilíbrio. Por esse motivo se veste de palavras.
Mulher Negra
É oprimida pelo racismo
Mulher negra é descendente de mulheres
que viveram a escuridão da escravidão
É descendente de mulheres escravizadas
que serviram seus senhores na mesa, na cama e no chão
Tamanha humilhação
Mulher negra tem mais dificuldade de, na
sociedade, ter ascensão
De se tornar médica, juíza, escritora,
engenheira, cientista, arquiteta, jornalista
Mas cozinheira, faxineira, lavadeira,
balconista, você encontra de montão
Mulher negra foi impedida de estudar
duas vezes, por ser negra e por ser mulher
A ela foi dada essa submissa condição
Feminismo na pele escura de mulher
negra é um movimento mais forte
A luta dessas mulheres é pra alcançar
igualdade de gênero, classe e raça
Por isso a mulher negra é sinônimo
de resistência
Como Dandara, Ruth de Souza, Rosa
Parks, Firmina Reis, Marielle Franco,
Angela Davis, Carolina Maria de Jesus
e tantas, tantas outras
mulheres negras que, conscientes de sua
história violenta e injusta, seguem
dizendo Não
Não ao passado e não ao presente
manchados pela escravidão
NÃO
Nunca mais riso roubado
Nunca mais deboche
Nunca mais mulher selvagem presa na gaiola
da angústia, ansiedade e depressão
Nunca mais julgamento
Nunca mais humilhação
Nunca mais fogueira da inquisição
Nunca mais cinto de castidade
Iara, mãe D’Água
Também passou pela mais longa história
da revolução
Me perco
Me acho
Momentos que sinto
Saudades de mim
Às vezes
Me perco dos meus
Talvez até de Deus
A reza traça o caminho de volta
De volta para o eixo
E para o encontro comigo mesma
Manifestação que canta, samba, forrozeia
Poetiza
Natureza minha
Se indigna também, entristece
Mas celebra a vida com Deus de novo
E sempre, amém!
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