Em Crônicas Selecionadas, Renilda Viana convida o leitor a mergulhar nas pequenas e grandes cenas do cotidiano com um olhar ao mesmo tempo sensível, crítico e cheio de afeto.
Nesta coletânea, desfilam personagens comuns — professores, estudantes, crianças, moradores das grandes cidades, trabalhadores, mães, velhos, sonhadores — todos narrados com humor sutil, ironia refinada e, muitas vezes, com uma camada de denúncia social embutida na simplicidade do texto. São histórias que misturam crítica e ternura, memória e invenção, sempre atravessadas por uma escuta atenta da vida.
Há espaço para o riso e para o incômodo, para o absurdo e para a identificação imediata. O leitor se reconhece nos episódios, se comove com a humanidade das situações e, principalmente, percebe o quanto a crônica ainda é um gênero potente para pensar o Brasil e seus contrastes.
Com um texto acessível, ritmado e cheio de vida, Renilda reafirma que escrever é um gesto de permanência e resistência. Seleção de Crônicas é mais do que uma coletânea: é um testemunho afetuoso sobre o mundo, sobre os afetos e sobre os atravessamentos de uma autora que transforma o ordinário em extraordinário — sempre com humor, crítica e generosidade.
Renilda Viana é escritora natural da Chapada Diamantina, no estado da Bahia, com formação em Ciências Biológicas e pós-graduação em Tutoria Online pelo SENAC/SP. Casada, mãe de Joelma, João Vitor e Joécio (in memorian), professora de Ciências Biológicas e do Ensino Fundamental I, foi orientadora de leituras no município de São Paulo, onde se aposentou. Escreve poesias, contos, crônicas e literatura infantil. Com seis livros autorais publicados: "Poesia" (Um mix de poesia), "Crônicas" (Crônicas Urbanas), "Cordel" (Um rio que passou em minha vida), "Conto" (Quem conta um conto aumenta um ponto) e dois livros infantis: "Desabafo de Catarina" e "Angelina (título 1)". Tem participações em diversas antologias.
Escândalo literário
Foi só um sonho. Ou um pesadelo?
Um escândalo!
Apareci em todos os jornais, escritos e televisivos, para apresentá-lo.
Jornais de bairro, de igreja, de metrô e tudo mais.
Ah, foi lindo!
Fomos convidados para participar de "reality show", programas de auditório;
para dar entrevistas, disputados nos programas de horário nobre, uma loucura!
Ah, que surpresa! Que felicidade!
Ouvia-se os brados dos apresentadores sensacionalistas da TV anunciando um grande escândalo.
Enquanto isso, o povo, em casa, no bar, nas ruas... imóveis, assistia a uma TV de plasma.
Ah, que alegria!
Ouvia-se no alto o barulho dos helicópteros contratados pelas redes televisivas sobrevoando esta escola, este bairro, este trabalho, mostrando para o mundo onde vive o futuro do país.
Ah, uma realização!
Fui convidada para pousar nas mais conceituadas revistas, ao seu lado.
Que satisfação poder mostrar esse talento desconhecido para o mundo.
Naquele momento, imaginei seu rostinho sorridente estampado na capa do "New York Times".
Com tanta gente à sua volta, teve que ser escoltado pela polícia para fugir da fúria do povo com fome de cultura.
Tinha gente querendo tocar, carregar nos braços...
E tudo isso pelo seu poema, uma obra-prima, meu menino!
Ah! Numa fuga desenfreada, invadiu os lares, as escolas, parques e fábricas... Te carregaram nos braços, meu pequeno escritor!
Você, assustado, fugia da multidão, porém, feliz!
Um escândalo poema!
Um escândalo literário!
Um furo de reportagem!
— Professora, professora! O sonho acabou?
Que criança não gosta de ouvir histórias e contos de fadas? Graças aos irmãos Grimm, repertório não lhes falta. Os mais belos contos infantis são apresentados em versões diversas. Quem nunca ouviu a famosa frase "Era uma vez" ou "Viveram felizes para sempre"?
Era uma vez... Assim começam os contos de fadas, sempre com príncipes e princesas, e algumas crianças abandonadas nas mãos de maldosas madrastas. Porém, nada que as torne menos clássicas e elogiadas mundialmente.
Na infância, me comovi com a bela história de João e Maria, um harmonioso casal de irmãos. O único problema era uma madrasta egoísta que ordenou ao seu pai, um homem sem coração, que os soltasse na mata para servir de almoço aos famintos leões.
E a Rapunzel, uma menina linda com belos cabelos encaracolados, quem não invejou aquelas tranças? História linda, não fosse mais uma vez a tal madrasta para lhe roubar a infância! Sempre me perguntei por que as madrastas daquela época eram tão más e por que havia tantas madrastas. Na verdade, nem sabia direito o que era madrasta, mas sempre as considerei figuras do mal.
A Branca de Neve até que foi uma menininha de sorte, apesar, novamente, da madrasta invejosa que ordenou que lhe arrancassem o coração. Ela encontrou os sete anões, que, além de serem minúsculos e morarem sozinhos numa floresta sombria sem os pais, acolheram a menina. Ah! A Bela Adormecida não tinha madrasta, ufa! Vivia com o pai, que era rei, e a mãe, uma rainha, porém frustrada. Adoravam enganar até mesmo quem os ajudou na concepção da pequena menina. Foi em uma dessas que acabaram condenando a filha a dormir por cem anos. Ah! Mas trata-se de um “clássico” magnífico! Ai meu Deus! E a Cinderela?! Quem não sonhou um dia ser a Cinderela, calçar aquele sapatinho de cristal! Até nos esquecemos do que a coitada passou nas mãos de uma madrasta infeliz e de um pai sem iniciativa. Sorte que encontrou um belo príncipe que por ela se apaixonou; por pouco estaria até hoje esfregando o chão.
Mas tem um clássico que não posso deixar de comentar! É certo que a mãe nem é citada; sabe-se que morava com o pai, que, devido aos seus desatinos, tornou-se um homem falido, e com suas irmãs invejosas. Estou falando de uma menina que comoveu a todos quando o pai a deixou nas mãos de uma fera pela qual, mais tarde, viera a se apaixonar. Só depois de muito sofrimento, descobre que, na verdade, era um príncipe: sovino, mas era príncipe. Uma linda história!
E a Chapeuzinho Vermelho, quantas vezes brinquei com um pano vermelho na cabeça, fazendo de conta que era a Chapeuzinho! Era a brincadeira preferida dos meninos; todos queriam ser o lobo mau só para comer a menininha indefesa. Nunca ouvi ninguém falar o que aconteceu com o pai da menina. O que contam é que morava com uma mãe muito irresponsável. Sim, irresponsável, pois um adulto que manda uma menininha tão pequena, sozinha, seguir uma trilha na mata, e ainda carregando uma cesta na mão, é no mínimo irresponsável. Ainda bem que ela só encontrou o lobo! Poderia ter encontrado um homem, um estranho! E a coitada ainda foi taxada de desobediente só porque deu uma paradinha para conversar com o lobo.
É muito curioso o fato de todos esses “clássicos” serem inspirados em crianças abandonadas, ora pelo pai, ora pela mãe, ora por todos os familiares. Até mesmo os três porquinhos, tão pequenos e já morando sozinhos à mercê dos perigos da floresta, entregues à própria sorte. Contudo, são clássicos! Trata-se apenas de inspiração; afinal, é tão natural encontrar crianças tristes, abandonadas e maltratadas por madrastas, padrastos ou por pais biológicos. Os contos de terror do mundo contemporâneo. Imaginem quantos garotos não desejaram ser o João do Pé de Feijão, encontrar aquele gigante, viver suas aventuras e sair rico no final! Ninguém se lembra de que o coitado não tinha pai, sozinho com a mãe na mais absoluta pobreza, que lhe mandava trabalhar para ajudar no sustento da casa. Quantos Joãos existem por aí, não vendendo vaquinhas, mas vendendo balas, chicletes, o corpo..., na tentativa de que um dia todos possam realmente dizer: viveram felizes para sempre!
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