Sobre o Chão e outros deuses é o primeiro livro de poesias de Marina Cristal. O título poderia ser auto explicativo caso fôssemos capazes de reconhecer prontamente a sacralidade do chão, da terra, das diversas formas de existência que atravessam a experiência humana, como a ideia de um “Deus de Espinosa” que contempla tudo aquilo que chamamos de natureza. Devido à distância que tomamos de nossa organicidade, quem lê pode demorar um tempo até acolher a sacralidade que permeia os textos, sua aura de devoção que habita uma dimensão expurgada de certezas ocidentais que dividem céu e terra. A experiência de reverência aparece na maternidade, na infância, na morte de um inseto, nos corpos, no Chão - deus maiúsculo - que nos constitui e sustenta.
Marina Cristal é pesquisadora, filósofa, artista-educadora e mãe. Nos mais de 20 anos de vivência musical, a maior parte de sua produção textual fora da pesquisa acadêmica está presente em letras de canções. Doutoranda e mestra em Filosofia pela UFABC, dedica-se a estudar o amor e sua ética na contemporaneidade.
VIII - FUNERAL
A mão do meu filho
aberta
aprendendo a carregar a morte
com delicadeza
pela segunda vez
o grilo
a borboleta
tirar do cimento e deitar no jardim
na primeira vez me perguntava
“E vai voltar a vida, né?”
Não vai.
Não assim.
Da segunda, não perguntou da vida
não esperou ressurreição
milagre
“Deixa eu segurar?”
Pronto.
Mão de criança, o funeral.
Leve, a morte.
“Tá mexendo as anteninhas!”
O vento
ou a esperança.
IX
É na minha garganta branca
que se reflete a lua
na noite aguda
Na minha voz de coruja
ecoa o rastro do sol
que vomito em reflexos ágeis
Para quem me vê
na escuridão
minha goela alba anuncia:
Estou aqui e essa é minha casa
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