Voragem - Andrio Santos

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SOBRE O LIVRO

 

Em uma manhã fria de primavera, ao visitar a sepultura de Oscar Wilde no cemitério Père-Lachaise, Andrio experimentou um instante de revelação poética. Aquela paisagem tomada por limo, heras e corvos revelou-se estranhamente viva — e ali nasceu a vontade de escrever este livro.

Em Voragem, a poesia emerge como resistência e pulsão vital. Influenciada por vozes como Baudelaire, Byron, T. S. Eliot, Hilda Doolittle, Emily Dickinson, Blake e Milton, o autor constrói uma obra atravessada por memórias, imagens e delírios poéticos. Seus versos exploram os limites entre corpo, carne, linguagem e espiritualidade, rejeitando abstrações e buscando, na materialidade do mundo, uma estética radical, política e sensorial.

Sua escrita questiona o divino, o gênero, o desejo e o peso das palavras sobre os corpos — compondo uma poesia marcada por transmutação, intensidade e ruínas férteis.

 

O AUTOR

 

Andrio J. R. dos Santos é acadêmico, tradutor e escritor. Tem mestrado nos livros iluminados de William Blake, doutorado em tradução, com foco nas Crônicas Vampirescas de Anne Rice, e um pós-doutorado dedicado a pesquisas sobre o gótico e teoria queer. Traduziu obras clássicas da literatura do medo, como O Rei de Amarelo e O Grande Deus Pã, ambas para a editora DarkSide Books. Participou de diversas coletâneas, entre elas a LGBTerror da Diário Macabro. Publicou o romance O Réquiem do Pássaro da Morte e foi roteirista da graphic novel Metalmancer. Identifica-se como bissexual, genderqueer e despende noites insones em escritas malditas. 

 

TRECHOS DO LIVRO

 

A BESTA NO MAR

As pontas dos teus dedos
quedam pralém do medo,
resplandecem em versos
crivados no cordeiro esfolado

teu peito troveja
chumbo nos teus olhos
a taça da longa espera da queda:
o corcel o beijo a lepra

a gente bebendo tormenta
absinto sangue no mar
morrendo de selos abertos
violados porque nunca foi
o bastante só prum olhar

 

FRAGMENTO I – ARTIFÍCIO

teu rosto encrustado no fogo
dum mosaico crivado do logos divino;
tua boca em verso e corpo averso
cantando pra mim – consuma
                                         meu corpo

doente de desejo
e forje de mim
um artifício de eternidade

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