Nos dias em que vivemos, há séculos, de moral inquisidora sobre o desejo, o feminino e a liberdade de ser, para introduzir a este conjunto de poemas, torna-se necessário convidar à nudez do espírito, não só o de cunho religioso, com ênfase, mas também o que toca filosofia e arte como a um só corpo. São escritos sobre a vontade: impulsos sobre o regozijo, reflexões de alguém que sente, escreve e que busca experimentar a língua sobre o sensual como constituinte de uma vida sã. Há o querer as fusões e mutações das palavras em versos, concupiscentes, dos movimentos da língua sobre a língua: do sentido e pensado ao escrito; do escrito ao dito e refletido; do prazer da palavra na boca. Poemo!
Monique Lima de Oliveira é sonhadora, artista de rua e de rádio; autora de doravante (2023), Troar, A idade da lua e Qualquer mistério, publicados em 2024; parceira nas canções Querer Quisera (Paulo Ohana), Fremia (Marcelo Callado) e Amarelo de Cádmio (Gabriel Falcão), entre outras. @outrotempo_moniquelima

Arte de Éva Bíró.
lado B
vou dizer que é a lua
mas pode ser a chuva
ou a falta do mar
talvez seja a rede
e seu doce embalo
talvez seja a sede
que se escreve com água
Janelas
Abro as janelas
dos meus olhos
para o verde
vasculho labirintos
sonhos e pesadelos
São faces encobertas
Esconderijos interiores dos amantes de René
Abro as janelas
dos meus olhos
para ver-te
lentes do cotidiano
em virtual concreto
São cadeados trancados
dentro e sobre as pontes
praças ermas sobre os trilhos
Fecho os olhos
quando alcanço
silêncio e oração
insubordinada
aos que ficam
O revolver
carregado de manhãs
mais-valia
de uma cena repetida sem pensar
bater o ponto quando começar o dia
de tempo e vida dando o sangue e repartir
nem meio fruto que compense toda lida
a veia aberta segue frouxa e consumida
sem uma reza ressentida e com pesar
levar na boca um canto novo pela vida
ferver o sangue para um dia terminar
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